Um dia na vida
“Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”... Não. Na verdade, amava só os Beatles. Para ele, apenas “os quatro rapazes de Liverpool” eram dignos de um sentimento tão nobre.
O mês de junho parecia não chegar nunca naquele ano de 1967. Seria o mês, segundo o garoto, da cura de todos os males. O elixir estava a caminho. Chamava-se “Sergeant Pepper’s Lonely hearts club band”. Título longo, capa dupla, 13 músicas: 7 no lado A, 6 no lado B. Sabia tudo de cor e salteado. Era rato das bancas bacanas, dessas que vendem revistas importadas. Penava para gastar o inglês, que aprendia há algum tempo. Era um dos momentos em que percebia que as aulas chatíssimas da Cultura Inglesa serviam para entender alguma coisa.
O 1º de junho, finalmente, chegou. Mas seria um dia longo. O garoto acordava às seis horas da manhã e enfrentava uma maratona de cinco horas de aula. As paredes do Pedro II, unidade Tijuca, pareciam uma prisão. A hora custava a passar. Onze horas, onze e meia, meio-dia. Foi quando o sinal tocou, redentor. Meio dia e meia. Saiu correndo escada abaixo, e nem percebeu que Laurinha, sua “little child”, esboçara um sorriso. Atravessou a rua e pegou o ônibus. 50 minutos depois, chegava ao seu destino. Rua Barata Ribeiro, Copacabana. Porta da Modern Sound, a maior loja de música da cidade. Um pôster imenso da capa do disco na vitrine anunciava que o sacrifício não tinha sido em vão. Entrou na loja. Um clima mágico pairava no ar.“A day in the life” ecoando nas caixas de som: “I read the news today, oh boy, about a lucky man who made the grade” (“Eu li o jornal hoje, puxa vida, sobre um rapaz sortudo que conseguiu se dar bem”). O garoto e os cabeludos, pais com filhos, e outros garotos - pessoas tão diferentes como a capa de “Sgt. Peppers”- que circulavam ali, também sentiam-se “rapazes sortudos”, afinal, estavam a poucos minutos de conseguir o que tanto ansiavam.
Saiu da loja, álbum em mãos. Sentia-se vitorioso. Era o primeiro disco que comprava sozinho, com o dinheiro que o pai lhe dera na noite anterior. Voltar para casa, era, agora, a grande expectativa. O toca-discos do quarto, ainda que modesto, o aguardava.
“Não me chamem para mais nada hoje”, disparou, ao chegar. Pasta do colégio para um lado, sapatos para o outro, “Sgt. Peppers” na vitrola. A contracapa vinha com as letras. Como ninguém realmente o chamou para mais nada, cantou a tarde inteira. O disco acabava, e logo voltava a tocar. Foi assim até à noite. Da sala, ouvia-se algum som, um tanto abafado. A mãe, preocupada, choramingava para o pai: “Mas esse menino não vai sair nem para comer, meu Deus?”.
O pai apenas sorria. “É coisa da idade”, dizia. “Essa moda daqui a pouco passa.”
Mas não passou. O tempo deu um senhor salto. Manhã do dia 1º de junho de 2007. Na capa do caderno de cultura do jornal espalhado à mesa, a revelação: “Há exatos 40 anos, os Beatles lançavam o álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, com o qual mudaram a música moderna e influenciaram toda uma geração”.
Respirou fundo. Uma lágrima discreta caiu do olho esquerdo. “Puxa vida, 40 anos!”. Já não era mais o garoto, mas um calvo coroa de 56 anos... que ainda ama os Beatles.
Sábado, Abril 19, 2008
Não Passou em branco
Dizem que branco “é a cor da paz”. Também dizem que quando algo foi facilmente esquecido, “passou em branco”. É, dizem. Mas não dá para dizer que os Beatles “passaram em branco”. Eles sequer “passaram”. Estão aí (oba!), em discos, livros e até hotéis, que não nos deixam esquecê-los. No, they don’t pass us by.
E os álbuns dos Fab Four estão se tornando quarentões. Em 2007, vivemos o 40º aniversário do festejadíssimo Sergeant Pepper’s Lonely hearts club band. Este ano, é a vez do chamado The White Álbum, sem título (o álbum é conhecido como “Álbum Branco”, não possui esse título, oficialmente) e composto por dois discos.
Depois da revolução de Sgt. Peppers, lançar um álbum em meio à outra revolução – 1968, aquele “ano que não terminou” -, causava certo frisson. O que esperar dos Beatles, já completamente livres das amarras dos tempos do “iê iê iê”?
Ganhamos dois discos em um. Duas ostras que carregam pérolas como “While My Guitar Gently Weeps”, “Happiness is a Warm Gun”, “Blackbird” e “Helter Skelter”.
O álbum chegou a ser malditinho durante algum tempo, quando em 1969, Charles Manson disse que se baseou em algumas canções dos discos para justificar uma série de assassinatos que praticou – invadindo casas junto a seguidores para cometer chacinas (a atriz Sharon Tate, casada na época com o cineasta polonês Roman Polanski, foi morta pelo grupo) escrevendo com sangue das vítimas o nome de algumas músicas, que segundo ele, previam o apocalipse e uma iminente guerra racial.
Tudo isso poderia fazer o The White Album “passar em branco” – com o perdão do trocadilho -, mas felizmente isso não aconteceu. O álbum pode não ser tão lembrado como o próprio Sgt. Peppers ou como o Abbey Road, por exemplo, mas reflete a maturidade musical dos Beatles: da capa, extremamente sóbria, aos arranjos. Mas como nada é perfeito, houve espaço até para uma besteirinha como “Ob-La-Di-Ob-La-Da”. Ok, “life goes on”.
Porém, agora quarentão, é hora de reverenciar e agradecer toda a qualidade do álbum. O papo parece meio estranho, mas como diz a canção “Birthday”, “They say it's your birthday, It's my birthday too”…
Fãs, separem seus balões e chapeuzinhos. É tempo de comemorar.
E os álbuns dos Fab Four estão se tornando quarentões. Em 2007, vivemos o 40º aniversário do festejadíssimo Sergeant Pepper’s Lonely hearts club band. Este ano, é a vez do chamado The White Álbum, sem título (o álbum é conhecido como “Álbum Branco”, não possui esse título, oficialmente) e composto por dois discos.
Depois da revolução de Sgt. Peppers, lançar um álbum em meio à outra revolução – 1968, aquele “ano que não terminou” -, causava certo frisson. O que esperar dos Beatles, já completamente livres das amarras dos tempos do “iê iê iê”?
Ganhamos dois discos em um. Duas ostras que carregam pérolas como “While My Guitar Gently Weeps”, “Happiness is a Warm Gun”, “Blackbird” e “Helter Skelter”.
O álbum chegou a ser malditinho durante algum tempo, quando em 1969, Charles Manson disse que se baseou em algumas canções dos discos para justificar uma série de assassinatos que praticou – invadindo casas junto a seguidores para cometer chacinas (a atriz Sharon Tate, casada na época com o cineasta polonês Roman Polanski, foi morta pelo grupo) escrevendo com sangue das vítimas o nome de algumas músicas, que segundo ele, previam o apocalipse e uma iminente guerra racial.
Tudo isso poderia fazer o The White Album “passar em branco” – com o perdão do trocadilho -, mas felizmente isso não aconteceu. O álbum pode não ser tão lembrado como o próprio Sgt. Peppers ou como o Abbey Road, por exemplo, mas reflete a maturidade musical dos Beatles: da capa, extremamente sóbria, aos arranjos. Mas como nada é perfeito, houve espaço até para uma besteirinha como “Ob-La-Di-Ob-La-Da”. Ok, “life goes on”.
Porém, agora quarentão, é hora de reverenciar e agradecer toda a qualidade do álbum. O papo parece meio estranho, mas como diz a canção “Birthday”, “They say it's your birthday, It's my birthday too”…
Fãs, separem seus balões e chapeuzinhos. É tempo de comemorar.
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